Era uma vez um homem que não tinha coração. Ele sempre achou que sua vida era apenas uma maçã. Só que a maça da qual ele comia era, deveras, crua e podre. Ele não via nada demais nisso; porém, ainda assim, era do jeito que era. Um belo dia ele encontrou uma moça que gostava muito de sonhar. Ele estava andando até uma macieira para pensar. Pensar no que podia fazer da vida dele que era tão ambígua de cor e de conteúdo - afinal, era uma maçã. Pensar em que podia ser melhor. Aliás, pensar como ser melhor. O homem era muito impaciente, mas também era equilibrado. Pelo menos era o que aparentava.
Mas então, esta moça que nada tinha a ver com a maçã do homem, chegou de maneira tão sorrateira que o homem levou um susto ao sair de seu próprio mundo paralelo: sua mente.
Ela perguntou por onde o colho tinha ido ou mesmo como fazia para o encontrar. Um coelho muito do apressado, porém, inteligente. Ele disse que sabia de coelho nenhum fazia duas décadas. Disse também que se ele estivesse apressado, podia também estar fugindo; assim, ele não queria ser procurado por ninguém. Ela ficou desapontada e quase chorou. O homem queria saber se esse animal era seu de estimação e tão importante para ela a ponto de quase chorar. Avisou também que, para sua idade, ter bichos como parte de suas atividades afetivas não era visto com bons olhos. A moça, por sua vez, deu de ombros e se questionou brevemente o porquê ela perguntara alguma coisa para aquele que parecia mais um “burguês com dor no calcanhar”, pensou ela. Durante esse período de pensamentos oblíquos, ele se voltou à ela e novamente quis saber o porquê de tudo isso. “Ora, o que você acha? Eu estava atrás dele para saber por onde eu devo ir.” Ir? Para onde? “Bem, creio que ele não seja o melhor conselheiro que você queira ter” Ah, é mesmo? “Sim. Eu sei disso. Mas não não vou aconselhar-me com ele. Apenas segui-lo.” “Desculpe? Houve algum engano… ‘Segui-lo’?” “Isso mesmo. Digo, você e suas regras e etiquetas desnecessárias seguem outros e suas respectivas regras e etiquetas desnecessárias. Enquanto eu, apenas um coelho.” “Não acredito que estou ouvindo isso de uma criança tola e ingênua que mal sabe andar e ficar por aí, pensando coisas…” “Certo, talvez eu seja mesmo uma criança tola e ingênua, mas não posso dizer coisas diferentes a seu respeito. Mesmo nem sabendo quem é, é notável que também ‘fique por aí, pensando coisas’. É uma pena não poder contar com o senhor nesta viagem. Apesar da pouca ou nenhuma experiência em aventuras além homem, o senhor seria bem vindo em nossa tripulação.” “Admito, agora está passando dos limites, mocinha. Onde já se viu… ‘Tripulação’??” “Sim, sim. É isso o que o senhor ouviu. Uma tripulação formada por marujos sem escrúpulos e piratas sonhadores e, bem, eu. Mesmo não tendo perguntando, falarei-lhe o motivo: - aos sussurros, a moça disse quase inaldivelmente - estamos fugindo. Vamos abandonar o navio e embarcar em um outro antes que seja tarde…”
Depois do que ouviu o que aquela moça de cabelos luminosos, o homem retrucou “Definitivamente, você não está em condições de andar por ai sozinha. Venha, acompanharei-a até uma enfermaria mais próxima.. ” “E quem disse que vou a algum lugar? Desculpe mas, assim como o senhor coelho, estou demais apressada para termos uma conversa sobre sanatórios e os defeitos da humanidade. Muito apressada. Preciso chegar antes da hora do chá. Bem antes. Sendo assim, senhor ‘seja lá qual for seu nome’, a sua presença foi bos para o meu aprendizado enquanto passei por aqui. Até outrora, Sr. ‘S’.”
A partir deste momento, aquela moça, toda ‘ambiguada’ e dualista que o homem conhecera, foi-se para muito longe, onde os sonhos valem mais que moedas. Foi também aí que o homem de chapéu preto, o “burguês com dor no calcanhar”, que pensava que sua vida era uma maçã podre, agora pensava que poderia ser uma laranja à procura de suas sementes.
cont.
An - TheGreenHouse
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V
Do isolamento à loucura: tudo que posso dizer agora é que não estou mais entendendo coisa alguma. Depois da crise e dos jornais diários nos lembrando a cada momento do nosso cotidiano que temos que trabalhar mais do que nunca, certamente, a seleta guarda de cientistas e escritores não mais que estarão perdidos. De onde vão tirar do que comprar os livros? Hoje, já datando este final de dezenove séculos, não creio que a sociedade culta prefira a roupa ou a comida a livros, convenções e artigos. Receio, porém, que não devemos entrar em declínio, pois, mesmo muitos desmerecendo meu acento aqui, nesta comissão acadêmica. Mas o mundo segue.
Todavia, existem momentos dos quais eu pareço estar inerte a tudo isso. Certo, já passei por isso antes. Por mais que eu fosse um completo idiota e um canalha perspicaz, não teria a audácia de me meter num acontecimento desses novamente (apesar de estar por esse tempo agora). Não posso mais deixar que essa vontade imatura me possua. A emoção e a paixão me tornaram um homem fraco e refutável. Preciso desenvolver mais minha racionalidade. Depois de deixar um amor visível tronar-se surreal, murmurei durante dias a mágoa e a angústia dentro do meu coração.
Durante dias (e também por noites) eu me perturbara ao ouvir vozes – sim; vozes inesperadas e não premeditadas pela minha mente. Não vozes singulares ou conhecidas ou mesmo, quietas. Vozes que repentinamente apareciam antes das manhãs seguintes. Pensava que isso não podia acontecer, pelo menos, a mim; provando que eu outra vez estava enganado, isso ocorreu-me. Penas e tintas que eu via em lojas antiquário, instigavam a minha consciência a pensar: tudo isso é clichê; quem nunca ouviu vozes na mente? Talvez, não fosse por isso que de certa maneira, incomodara-me. Tratava-se, além do mais, de vozes estranhas e, como já disse, sem que eu as pudesse pensar.
Sussurravam quase inconscientemente: por vezes infantis, por outras masculinas experientes. Mas eram pessoas diferentes que causavam na minha imaginação um estrago imensurável. Pessoas fantasiadas mentalmente que guardavam comigo, ao passar desses longos anos, esse “segredo sentimental” de uma vida passada. Uma vida passada no presente (ademais, eu não acreditava em qualquer esoterismo). Enfim, chego à conclusão de que tudo isso não passou de mais uma peça do meu alter ego estúpido, porém, esperto. Digo, meu cérebro.
Eu abandonei essa vida quando descobri as dores do ser, logo aos vinte e quatro outonos de nascimento; descobri os amores de uma mulher à esse tempo. Da qual, entretanto, perdi independentemente, sem saber ao certo quem era essa mulher. Eu a perdi antes de conhecê-la de fato. Não via uma razão qualquer para explicar, mas nossa relação era, digamos, diferente. Sinto que minha incapacidade amorosa afunda-me em pavores, e essa minha carência não me permite, então, ter algum relacionamento consistente e, assim, fiel. Outrora percebi que não fui ‘fabricado’ para amar uma pessoa completamente.
Isto, portanto (se assim me conheço), é um desafio do qual meu sujeito não estava disposto a enfrentar. Um desafio que meus super poderes de um exímio mecânico e dramático jornalista não deixam ultrapassar a minha espessa camada de aço que separa meu interno à capa de cara dura.
Não tinha a menor intenção de fincar uma morada fixa, um emprego fixo (apesar de, ao analisar os fatos, eu precisara ter algum), um ‘território Bosley’ fixo. Não fugira à regra, então, a questão do relacionamento. Para mim, decerto, não mais importava esta situação atual ou passada. Só interessava em comprar um suéter cobalto do azul, comprar passagens para Caxemira, os Balcãs, o Mediterrâneo, e posteriormente, São Petersburgo – cidade da qual sentira uma imensa necessidade em conhecer, afinal sua família descendia de lá. Então, já estava na hora da partida. Arrumei tudo e segui viagem: só interessava-me deixar o “rumo seguir seu curso”.
An
IV
Se eu deixasse tudo como estava, a vida estaria bem mais fácil. Se você não existisse, a minha vida seria mais fácil. Sua incorruptível ausência causa transtorno em minha presença. Sua falta de sensibilidade e compromisso me faz revirar o estômago e sacudir minha mente absurda. Por mais que eu tente, por mais que eu leia, por mais que eu ‘evolua emocionalmente’, não consigo parar de sentir o que eu sentia antes. Mas, como se não é possível reviver um momento passado? Simplesmente, não sei.
As lembranças momentâneas remetem à luz do sentimento já vivido. Isso de fato, ocorre. O problema é que, quero esquecer-te. Esses picos de um amor avassalador do passado fazendo-me surtar enlouquecidamente. Se um dia eu chegar a fazer alguma objeção quanto à Medicina (quando eu for ao médico e discutir com ele sobre os conceitos da vida), ele certamente não saberá o que se passa. Verdadeiramente.
Só lamento pela minha carência sentimental, caso você ache que eu tenho uma. Você quase inconscientemente, quebrou todas as possibilidades do algo maior. Do nosso algo maior. Você foi embora sem ao menos dizer ou simplesmente, mencionar o meu nome à sua lembrança. Como pode fazer isso? Como deixou que a nossa relação chegasse a tal ponto? Mas eu, somente, estou tentando readaptar-me.
Antes, eu me culpava e também minha incapacidade moral em deixá-la feliz; culpava também (perco a conta) o inconsciente pensamento injusto. Pensar demais nos torna mecânicos, incompetentes de paixão e sinceridade.
Porém estou, mais uma vez, mudando e mesclando-me nesta temporária cidade-momento. Estou, mais uma vez, inerte às suas reclamações e seu passado, e a sua pessoa. Você se surpreende quando está em uma situação dissimulada, perigosa e emotiva, você perde razões e seu coração. Apaixonar-se é necessário. Mas não se embebedar desse vício cruel e sarcástico. Isso não é bom.
Para mim, agora, não é.
Certa vez, eu disse que mudar é em algumas situações da vida, é melancólico e desumano. Que somos humanos e rejeitamos a mudança. Como algo desnecessário e sádico, como se essa mudança personificada fosse a causadora de todos os incômodos vitais de um ser. Mas retifico agora: a mudança é algo inevitável e impreciso. Aguentar e engolir a seco o pão deixado na mesa.
An
III
“Sinceramente, os meus olhos já estão muito cansados de tentar entender o mundo, a vida, o ser humano. Talvez nunca consigamos de fato entende-lo. Minha tarefa aqui é somente descrever suas ações e costumes. Ao longo da minha jornada como jornalista, e também como, por mais absurdo e controverso que pareça, mecânico, descobri que certas maneiras de não compreender como um todo; mas tentar experimentar o homem. Decerto, nesta minha carta aos Caros Amigos de Londres, receio estar pondo alguns temas em bordo, dos quais, pela minha temporária falta de sensibilidade, não estou apto a fazê-la neste carecido momento. O que vim aqui argumentar é um posto, ao menos modesto junto à sua editora. Sabem certamente, que tenho devidas qualidade – e defeitos, amém – nos quais me possibilitam a sair da ‘penumbra’. Pode ser que seus sentimentos e suas razões poderem quanto a minha entrada na sua instituição. Creio, todavia, que serei mais que dolo ao conseguir tal posto. Recorro à nossa relação de afeto para tentar suprir minha carência momentânea – o custo monetário da vida, apesar do que, realmente, não tenha nenhuma – neste tempo de grandes turbulências em nosso meio, devemos nos preparar para o fim dessa crise, e avançar em direção a outra menos capitalista: a liberdade de expressão.
Tendo fim, espero piamente que vocês entendam minha situação atual, e saiba o prestígio grande pelos méritos a vocês atribuído por este belo jornal.
Agradeço-lhes a compreensão e a gratidão.”
Você já tentou tirar uma resposta de um homem que os outros chamam de gentios? Ora, é algo fascinante! Você tentar arrancar-lhe informações precisas, que são de interesse geral, mas que no fundo você faz aquilo só para se divertir. Bem, os meus últimos dias desde que me mudei da Cidade de York para a multifaceta Londres. Meus ardores estão um pouco mais aguçados… Faz mais ou menos três anos que ela se foi… Mas o que tem nisso? Ora, novamente, Londres é a capital da juventude e da mídia “fuscinante”. Da The Square Miles até Greenwitch. Talvez, uma pena, pois estarei mudando-me para um lugar… Mais ou menos um país. Mas não sei exatamente onde é e quando vou. Somente sei que cobrirei um fato histórico, ou algo, tipo.
Depois de tantos relativos tempos, decidi não mais inventar nenhumas expectativas sobre o amor, a solidão, a carência e o desapego moral – bem, este último, posso até dar umas escapadas de vez em quando. Não se trata de esquecer o passado. Mas sou um homem moderno. Com máquinas de escrever modernas, com um pensamento moderno, com máquinas de fotografar modernas e sentimentos modernos. Estou modificando meu modo de ser, apagar tudo, tentar reconstruir-me do zero – ou quase. Porém, o importante em demasia nisso é a modificação do espaço. Ele me faz lembrar. Ele me faz chorar, e sendo um homem moderno, não posso correr esse risco. Risco esse que talvez eu deva ter uma explicação tola, pois fugir não é o melhor merecimento que se tem quando há ou houve alguma perda significante – seja ela material ou metafísica, ou não -, uma vez que tais expectativas destoem por completo qualquer esperança que seja. Digo esperança no sentido diferente a expectativas, seja lá o que significar. Pois não se admira a verdade quando se foge do fato. Temos de encarar isso de fronte. Mesmo que pelo trajeto, percam-se almas cristalizadas de flores e antologias poéticas. Somente. Não adiante; onde estiver a lembrança sempre o acompanhará. Não importa onde esteja, aquilo é presente consigo, e onde for, ela vá junto.
Entretanto, como sou um ‘homem moderno’ – no jeito mais ingênuo e iniciante de falar – estou pondo em prática uma das coisas que aprendi na vida de mecânico: se não presta, jogue fora. Mas uma das vontades que sinto é visitar o mais íntimo das virtudes e destemperanças da vida: a busca inconstante pré-verdades e pós-mentiras. Esta inconstância me permite visualizar, em suas devidas proporções, o cotidiano idiota (entenda idiota no sentido de fragilidade e sem nenhuma guarda). Bem, vejo neste momento, sinto a necessidade de debater o que seria esse ser idiota do ‘bom sentido’. Pois bem, também vejo que não há como; não haverá oportunidades.
Disperso-me aqui com um acalento rio que jorra nas suas entranhas veias adentro, a solidão que de certo modo corrompe a abertura do coração para novas experiências. Mas ela não é tuim; digo a solidão. Ela é a minha companheira de luta de todas as horas.
‘DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?’
Mario Quintana.
An
II
“Se por algum motivo eu deixei de amá-lo, não o foi culpado. Aliás, o amor não acabou. Somente pede um tempo para que as coisas tendam a não ter mais tanto compromisso. Queria que ele soubesse, ah como queria… Só que seu foco não foi mais para mim. Sua vida não era mais minha. Sua mente estava em outro lugar. Mas cá estou, tentando deixá-lo menos confuso e quem sabe, descobrir aquilo que deve ser achado em seu ser.”
-
Novamente, sinto que sou o culpado por sua frustração e fracasso. Não deixar que a própria sorte da vida faça-me jorrar rios incalculáveis de lágrimas rubras; uma vez que não o farei. Quanto mais penso no que poderia ter ocorrido naquela tarde, mais tenho a vontade de desistir de encontrá-la. Você foi embora para se entender; e quem de fato está procurando entendimentos sou eu. Foi você a ‘descobridora’ de si; mas quem está perdido tentando achar algum pedaço de terra existente em ti sou eu.
Bem, talvez nunca saibamos onde está a verdadeira lacuna entre a desilusão prolixa do amor e o consentimento da paixão pelo perdão e busca. Por vezes penso se sou realmente capaz de suportartanto peso. Queria poder voltar a sentir o cheiro do seu café, da sua roupa, do seu cabelo… Queria poder te contar como Angelina cresceu, virou moça; e como Edmundo deixou a infância de um jeito que até eu me surpreendi. E o quão difícil está a vida com esses maquinários, dos quais acabaram de cruzar os limites de York e, creio que sem muita demora, chegarão a fábrica antes que o sol Do fim de tarde deixe de aparecer. O frio, como sempre, ajuda o castigo a ficar mais presente; não menos interessante e belo, mas ainda sim, um castigo.
Assim como nós nos fizemos: somos um castigo masoquista suave e lindo.
A partir de então, sou o mais novo ‘desapegado monetário’ deste nem tão novo país, e por causa das minhas ideias (como você muito bem as conhece), ficarei com poucas esperanças de conseguir algo para o sustento. Entretanto, prometo que ao chegar a hora, deixarei a paixão falar mais alto. Assim, como você queria: sem exageros, sem redundância, romantismos, sem regras estúpidas, valores desnecessários… (Perdão, meu bem, mas até este momento, não me permiti dessa objetividade toda. Ainda não me tornei algum tipo de cientista exato).
Porém, nestes momentos, certamente sentirei o ardor de seu coração pulsando dentro da minha alma. Deixarei meus sentidos experimentarem a vontade. Alucinadamente. Seus desejos se tornarão meus. Sua ausência se torna então, minha estima, meu consolo.
Platão dizia que o amor que antes fora imaginação, agora então idealizado, perde-se por não possuir veracidade. E se fosse o inverso? Como ele se explicaria? Digo: meu amor uma vez já fora vivido, sentido, e encarnado. Traduzido até de forma improvável. Pois, só resta deste amor, apenas as mínimas batidas do teu coração.
Recordo-te.
An


